O fenômeno das "fake news", ou notícias falsas, não é novo, mas a velocidade e o alcance de sua disseminação na era digital transformaram o cenário político e eleitoral. A desinformação, especialmente quando orquestrada com fins eleitorais, desafia os pilares da democracia, levantando questões complexas sobre a liberdade de expressão, a integridade do processo eleitoral e o papel do Direito na regulação desse ambiente. Este artigo aborda os aspectos polêmicos das fake news nas eleições brasileiras, explorando a legislação, a jurisprudência e os desafios práticos para a advocacia eleitoral.
O Desafio da Definição e a Liberdade de Expressão
A primeira grande dificuldade no enfrentamento das fake news reside em sua própria definição. O termo abrange desde a desinformação não intencional até a criação deliberada de conteúdo falso para manipular a opinião pública. A linha entre uma notícia falsa e uma opinião contundente, ainda que baseada em premissas questionáveis, é tênue. O Direito Eleitoral busca combater a disseminação de informações sabidamente falsas que tenham o potencial de desequilibrar o pleito, mas deve fazê-lo sem violar a liberdade de expressão, consagrada no art. 5º, IV e IX, da Constituição Federal.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem reiterado que a liberdade de expressão não é um direito absoluto e não pode ser invocada para proteger a disseminação de mentiras que atentem contra a honra de candidatos ou a higidez do processo eleitoral. A jurisprudência, contudo, exige cautela na intervenção estatal, priorizando o direito de resposta e a remoção de conteúdo apenas em casos de falsidade flagrante.
O Arcabouço Legal: Do Código Eleitoral à Resolução TSE nº 23.732/2024
A legislação brasileira tem buscado se adaptar à realidade digital. O Código Eleitoral, em seus artigos 323 e 324, tipifica como crime a divulgação, na propaganda eleitoral ou durante o período de campanha, de fatos sabidamente inverídicos em relação a partidos ou candidatos, capazes de exercer influência perante o eleitorado, bem como a calúnia com fins eleitorais. A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) estabelece regras para a propaganda na internet e prevê o direito de resposta.
A evolução normativa mais significativa ocorreu por meio das Resoluções do TSE. A Resolução TSE nº 23.610/2019, que dispõe sobre propaganda eleitoral, introduziu regras específicas para a remoção de conteúdo falso ou descontextualizado. A Resolução TSE nº 23.732/2024, que atualizou as regras para as eleições mais recentes, aprofundou a regulação, exigindo maior transparência das plataformas digitais, estabelecendo prazos mais curtos para a remoção de conteúdo ilícito e prevendo sanções mais severas para o descumprimento das ordens judiciais, incluindo a possibilidade de suspensão temporária dos serviços da plataforma em caso de reiterado descumprimento.
A Jurisprudência do TSE e do STF: Casos Emblemáticos
A jurisprudência sobre fake news nas eleições tem sido construída de forma incremental. O TSE tem adotado uma postura proativa, criando grupos de trabalho e parcerias com as plataformas digitais para agilizar o combate à desinformação. O Supremo Tribunal Federal (STF), por sua vez, tem sido instado a se manifestar sobre a constitucionalidade das medidas adotadas pela Justiça Eleitoral, especialmente no que tange à liberdade de expressão e à competência do TSE.
Um marco jurisprudencial importante foi o julgamento das ações que pediam a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão por suposto abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação por meio de disparos em massa de mensagens no WhatsApp durante as eleições de 2018 (AIJE 0601968-80.2018.6.00.0000). O TSE julgou as ações improcedentes por falta de provas robustas de que os disparos tiveram gravidade suficiente para desequilibrar o pleito, mas estabeleceu a tese de que o uso de aplicativos de mensagens para disparos em massa contendo desinformação pode configurar abuso de poder, ensejando a cassação do registro ou do diploma.
A atuação do STF no Inquérito das Fake News (INQ 4781) também tem impacto no cenário eleitoral, investigando a disseminação de notícias falsas e ameaças contra ministros da Corte, com reflexos no debate sobre a regulação das plataformas digitais e os limites da liberdade de expressão na internet.
A Responsabilidade das Plataformas Digitais
A responsabilidade das plataformas digitais (redes sociais, aplicativos de mensagens, provedores de busca) é um dos temas mais polêmicos. O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014), em seu art. 19, estabelece a regra geral da irresponsabilidade dos provedores por conteúdo gerado por terceiros, salvo em caso de descumprimento de ordem judicial específica. No entanto, a Justiça Eleitoral tem imposto obrigações mais rigorosas às plataformas durante o período eleitoral, exigindo a adoção de medidas proativas para combater a desinformação, a criação de canais de denúncia ágeis e a colaboração estreita com a Justiça Eleitoral.
A Resolução TSE nº 23.732/2024 consolidou a exigência de que as plataformas adotem políticas claras de combate à desinformação e atuem rapidamente para remover conteúdo ilícito após notificação judicial. A discussão sobre a moderação de conteúdo e a possível responsabilização das plataformas por omissão continua sendo um dos principais desafios jurídicos na área.
O Abuso de Poder e a Disseminação de Fake News
A disseminação de fake news pode configurar abuso de poder, seja econômico, político ou uso indevido dos meios de comunicação social, condutas que podem levar à cassação do registro ou do diploma do candidato beneficiado e à declaração de inelegibilidade (art. 22 da Lei Complementar nº 64/1990). O TSE tem firmado o entendimento de que o abuso de poder se caracteriza quando a disseminação de desinformação atinge gravidade suficiente para comprometer a normalidade e a legitimidade das eleições.
A comprovação da gravidade, contudo, é complexa, exigindo a demonstração do alcance da desinformação, dos recursos financeiros empregados (no caso de abuso de poder econômico) e do impacto potencial no resultado do pleito. A prova do liame entre a conduta ilícita e o benefício auferido pelo candidato também é um desafio probatório considerável.
Dicas Práticas para Advogados Eleitoralistas
A atuação na área eleitoral em tempos de fake news exige do advogado agilidade, conhecimento técnico e estratégias processuais eficientes.
1. Monitoramento Constante e Provas Robustas
A velocidade da internet exige monitoramento constante das redes sociais e aplicativos de mensagens. A coleta de provas deve ser rigorosa, utilizando ferramentas de preservação digital (como a ata notarial ou plataformas de registro de evidências digitais com validade jurídica) para comprovar a autoria, o conteúdo, a data e o alcance da publicação antes que seja apagada.
2. Ação Rápida e Medidas Liminares
A Justiça Eleitoral atua com prazos exíguos. O pedido de remoção de conteúdo falso deve ser feito imediatamente, acompanhado de provas consistentes e fundamentação jurídica sólida, buscando a concessão de medidas liminares para cessar o dano o mais rápido possível.
3. Direito de Resposta
O direito de resposta é um instrumento crucial para restabelecer a verdade. O pedido deve ser formulado com clareza, indicando o conteúdo falso e apresentando a resposta de forma objetiva, com tamanho e destaque proporcionais à ofensa.
4. Ações de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE)
Em casos de disseminação estruturada e financiada de fake news, a AIJE é o instrumento adequado para apurar o abuso de poder. A petição inicial deve ser instruída com provas consistentes do esquema de desinformação, da participação ou anuência do candidato e da gravidade da conduta.
Conclusão
O combate às fake news nas eleições é um desafio contínuo que exige a atuação conjunta da Justiça Eleitoral, do Ministério Público Eleitoral, dos partidos políticos, das plataformas digitais e da sociedade civil. A legislação e a jurisprudência brasileiras têm evoluído para lidar com a desinformação, buscando equilibrar a proteção da higidez do processo eleitoral com a garantia da liberdade de expressão. Para o advogado eleitoralista, o cenário exige atualização constante, domínio das ferramentas digitais e estratégias processuais ágeis para garantir a defesa dos direitos de seus clientes e a lisura do pleito. A busca por um ambiente eleitoral mais limpo e transparente passa, necessariamente, pelo aperfeiçoamento dos mecanismos jurídicos de combate à manipulação da informação.
Aviso: Este artigo tem caráter informativo e didático. Deve ser verificado e adaptado a cada caso concreto por profissional habilitado. Acesse advogando.ai para mais recursos.